Mostrar mensagens com a etiqueta Guião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guião. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de dezembro de 2009

In (conveniências) e a cadeira

Acto I, Cena 1

Sala de exposições em Lisboa, com vista sobre a cidade. Como fundo, o rio Tejo e Almada.
E uma cadeira.


(Pedro encontra-se no meio da sala, com um ar pensativo a observar um quadro. Lúcia, com um ar cansado mas feliz, olha a sua volta e fixa um olhar na cadeira por segundos. Dirige-se para ela e senta-se.)

Lúcia - Ah! Que bom!
Pedro – Desculpe, falou?
Lúcia – Sim. Disse que bom estar aqui esta cadeira.
Pedro – Gosta dessa cadeira?
Lúcia – Sabe… estou cansada.

(Pedro cumprimenta Lúcia.)

Pedro – Pedro.

(Lúcia levanta-se.)

Lúcia – Lúcia. Prazer em conhecê-lo.
Pedro – O prazer é todo meu.
Lúcia – Como assim?
Pedro – Sou o autor desta exposição!
Lúcia – Você? aah!

(Pausa entre nós)

Lúcia – Deve ser um grande prazer andar pelo mundo de máquina ao peito.
Pedro – Nem sempre.
Lúcia – Como assim?
Pedro – Há fotografias que eu gostava de não ter tirado.
Lúcia – Desculpa! Porque diz isso?
Pedro – Gostei!
Lúcia – Gostou!

(Pausa)

Lúcia - Gostou de quê?
Pedro – Gostei da forma como disse desculpa, aproximou-nos, voltemos ao assunto.

(Pausa)

Pedro – Estava eu a dizer que há fotografias que gostava de não ter tirado.
Lúcia – Sim.
Pedro – O homem ainda está adormecido.
Lúcia – Como assim?
Pedro – Deixe que as fotografias falem.

(Lúcia diz baixinho…)


Lúcia – Falem…

Acto I, Cena II


(Entra na sala Marry, timidamente, trás consigo livros. Pedro e Marry trocam olhares.)

Lúcia – Por favor onde é o banheiro?
Pedro - Naquela porta, ao fundo do corredor.
Lúcia – Muito obrigada!

(Lúcia sai)

Acto I, cena III
(Marry dirige-se para o primeiro quadro e começa a ler para ela. Pedro dirige-se para a porta. Quando passa junto de Marry, esta deixa cair um livro. Baixam-se e ele apanha o livro e dá-lho, ficam a olhar um para o outro durante uns segundos.)


Marry – Obrigada.
Pedro - De nada. Foi um prazer.

(Levantam-se os dois. )

Pedro – Pedro, prazer.

(Cumprimentam-se. )

Marry – Muito prazer. Sou a Marry
Pedro – Obrigada pela sua presença.
Marry – De nada. Quem é o senhor?
Pedro – Sou o autor desta exposição. E Marry?
Marry – Sou Cabo-verdiana, estou em Lisboa a tirar um curso na universidade.
Pedro – Interessante, que curso? Dá-me a honra de saber?
Marry – História.
Pedro – Muito interessante. Porquê história?
Marry – Para um dia fazer um levantamento da história de Cabo Verde e a origem do meu povo, para poder escrever um livro.
Pedro – É um país novo!
Marry – Sim! Como país! Mas como pedaços de terra espalhados no Atlântico, tem tantos anos quanto a terra mãe.
Pedro – Claro! Como Portugal e suas ilhas.
Marry – Sim! Mas o que mais me interessa é saber a identidade do povo Cabo-verdiano.
Pedro – E já sabe alguma coisa?

Acto I, Cena IV

(Entra Lúcia.)

Lúcia – Desculpem…
Marry e Pedro – Não tem importância.
Lúcia – O banheiro tem…

(Pedro interrompe a Lúcia para apresentar Marry a esta.)

Pedro – Lúcia e Marry.

(Lúcia e Marry cumprimentam-se. )

Pedro – Eu estava a dizer…
Marry – Ah sim! Estávamos a falar sobre a identidade de Cabo verde.
Pedro – Claro.
Marry - Confronta-nos com os problemas relativos à nossa identidade. Somos ou não africanos?
Pedro – Como assim?
Marry – Porque quando as ilhas de Cabo Verde foram descobertas pelos portugueses, estas estavam desertas.
Pedro – O povo cabo-verdiano tem uma grande mistura de etnias.
Marry – A cultura cria-se e recria-se continuamente pela ligação a outros povos.

Acto I, Cena V


(Entram na sala a Ministra da Educação de Angola e a Embaixatriz de Cabo Verde, e olham ao seu redor. As duas dirigiram-se ao mesmo tempo para a cadeira, e chocaram. Pedro, Marry e Lúcia olham e voltam à conversa. As duas olham uma para a outra com cara de zangadas e a Embaixatriz senta-se. A ministra fica a observar os quadros.)

Pedro – É a cadeira do poder.
Lúcia – Então vocês têm um património muito rico, Marry!
Marry – Sim! Temos um património cultural modesto sem luxos, nós cabo-verdianos temos que preservá-lo e transformá-lo num Museu vivo.
Pedro – Vocês, em Cabo Verde, falam outras línguas sem ser o português?
Marry – Sim! Para além do “crioulo” nós passamos a ter as línguas internacionais, não por luxo, nem por privilégio, mas sim por necessidade.

(Pausa. Marry sorri. Pedro e Lúcia ficam pensativos. )

Marry – É Cabo Verde, verde são os trópicos, é uma parte de África.
Pedro – Se a Lúcia me permite… posso tratá-la por “Tu”?
Lúcia – Claro!
Pedro – O que te levou a fazer a viajem do Brasil a Portugal?
Lúcia – Como adivinhou?
Pedro – Intuição.
Lúcia – Vim a um congresso sobre os benefícios da actividade física na terceira idade.
Pedro – É mais um problema social que Portugal tem, com o envelhecimento da população. Li num jornal que está a decorrer em Portugal cursos de agentes de Geriatria para resolver este problema.
Marry – Nem tudo é um problema, é mais uma saída profissional. Deve ter sido interessante.
Lúcia – Sim! Sabes, sou assistente social e professora de educação física no Brasil.
Pedro – Vieste à procura de conhecimentos.
Lúcia – Para aplicar ao meu grupo de jovens que tem entre 50 a 85 anos.
Marry – Deve ser uma tarefa difícil.
Lúcia – A princípio existe algumas barreiras, mas é muito gratificante ver os benefícios.

(De repente, Pedro olha para a Ministra.)

Ministra e Pedro – Olá.
Pedro – Marry e Lúcia, desculpem.

(Pedro retira-se para cumprimentar a Ministra.Marry e Lúcia ficam a observar as fotografias.)

Pedro – Desculpe. Foi a Senhora que chegou há pouco?
Ministra – Sim!
Pedro – Não a reconheci, peço desculpa.
Ministra – Não tem importância.
Pedro – Obrigada Sr.ª Ministra pela sua presença, é uma honra.
Ministra – A honra é minha, tem aqui um trabalho lindíssimo.
Pedro – Muito obrigado! A Sr.ª Ministra está com um ar cansado.
Ministra – Estou em Lisboa a tratar de assuntos relacionados com a educação.
Pedro – O vosso País tem uma taxa elevada de analfabetismo.
Ministra – Sim! Temos uma insuficiente rede escolar, corpo docente e um abandono escolar elevado.
Pedro – A Sr.ª Ministra tem muito trabalho pela frente para alterar os números.
Ministra – Por esse motivo vim a Portugal pedir colaboração.
Pedro – Em que aspecto, Sr.ª Ministra?
Ministra – Na formação de professores, e alguns professores.
Pedro – O analfabetismo a falta de conhecimento e a má formação traz hoje graves problemas sociais a um País.
Ministra – Sim Sr. Pedro, graves problemas.
Pedro – Sr.ª Ministra, não é só na educação que tem graves problemas.
Ministra – Sim! Também temos graves problemas na saúde com falta de infra-estruturas e as que existem estão em mau estado, e temos falta de pessoal técnico.
Pedro – É um País com elevada taxa de pobreza.
Ministra – Sim! A nossa pobreza centra-se na fome. Estima-se que metade da população passe fome.
Pedro – Sr.ª Ministra, o HIV?
Ministra – Pedro , nem me fale nisso. Falta de conhecimento leva a uma elevada taxa de pessoas infectadas.
Pedro – Sr. ª Ministra, faz-me confusão! Um País como Angola rico em recursos naturais e os números são tão elevados…
Ministra – Pedro, tenho algumas dificuldades em falar neste assunto.
Pedro – Claro! É falar na cadeira. A Sr.ª Ministra está a ficar pálida!
Ministra – Como?
Pedro – Nada. Sr.ª Ministra. Estava a convidá-la a sentar-se naquela cadeira, mas está ocupada.
Ministra – Ah sim, queria apresentar ao Sr. Pedro a Embaixatriz.

(Pedro e a Ministra dirigem-se para junto da Embaixatriz. )

Ministra –
Sr. Pedro, a Embaixatriz.
Pedro Prazer Sr.ª Embaixatriz, sou Pedro.
Embaixatriz – Como está, Sr. Pedro?
Pedro – É uma grande honra ter na minha exposição a Sr.ª Embaixatriz.
Embaixatriz – A honra é minha, Sr. Pedro.
Pedro – Posso saber a honra dessa visita?
Embaixatriz – Ouvi falar muito bem da exposição.
Pedro – Muito obrigada Sr.ª Embaixatriz. Desculpe, parece-me que está preocupada.
Embaixatriz – Estou preocupada com o que se está a passar no meu País!
Pedro – Como assim Sr.ª Embaixatriz?
Embaixatriz – Sabe, em Cabo Verde tem havido pouca chuva!
Pedro – É verdade! É um problema que fatiga o povo cabo-verdiano.
Embaixatriz – A escassez de chuva traz seca.
Pedro – É um dos graves problemas da maior parte de África.
Embaixatriz – Sim! A seca provoca a escassez de produtos alimentares e pastos para os animais.
Pedro – As consequências são a fome.
Embaixatriz – Sim! Este problema traz muitos outros…
Pedro – Claro Sr.ª Embaixatriz quer falar dos outros?
Embaixatriz – Já agora, Sr. Pedro. Temos graves problemas na saúde com falta de efectivos e infra-estruturas, abandono escolar e imigração.
Pedro – E a Sr.ª Embaixatriz vê alguma luz no fim do túnel?
Embaixatriz – Sabe, não é fácil, o nosso governo está a tentar ajuda junto de outros Países.
Pedro – A Sr.ª Embaixatriz está com um bom aspecto.
Embaixatriz – Sim, sinto-me bem nesta cadeira.
Pedro – Sabe, Sr.ª Embaixatriz, está sentada na cadeira do poder.
Embaixatriz – Sabe, sinto-me muito bem.
Ministra – Eu também!
Pedro – Se as Damas me permitem, gostava de apresentar a Marry e Lúcia.
Embaixatriz e Ministra - Claro.
Pedro – Marry e Lúcia. (Chamando-as)

(Marry e Lúcia juntam-se aos outros. )

Pedro –
Marry e Lúcia, estas Senhoras são a Ministra e a Embaixatriz.

(Elas cumprimentam-se.)

Marry, Lúcia, Ministra e Embaixatriz – E Portugal?
Pedro – É um jardim à beira mar plantado!
Marry, Lúcia, Ministra e Embaixatriz – Aah…
Pedro – Minhas Senhoras, com tantos problemas sociais, que soluções?
Embaixatriz – Trabalho.
Ministra – União.
Lúcia – Humildade.
Marry – Justiça
Pedro – Muito Amor.

sábado, 12 de dezembro de 2009

O DESABAFO DAS AMIGAS


Cinco amigas decidiram marcar um encontro numa casa de chá para falarem dos seus problemas. Em forma de desabafo, juntas tentaram arranjar soluções. Foram chegando aos pouco. Quando todas já estavam reunidas, entraram e escolheram uma mesa num recanto sossegado para estarem mais à vontade.


Acto I, Cena I


Maria: Olá amiga, tudo bem?

Francelina
: Sim, graças a Deus.

Maria
: Sabes, estou com um problema com o meu filho, não me liga nenhuma. Quando fiquei viúva ele quis-me roubar as poupanças que o pai me tinha deixado, pois não lhas entreguei de boa vontade. Agrediu-me, roubou-me… A tareia foi tão grande que até ao hospital fui parar.

Francelina
:
A minha situação também não é melhor. Os meus filhos não querem saber de mim. Telefono, não atendem; escrevo cartas, não respondem. Neste meio tempo senti-me mal e fui para o hospital, de lá tentaram contactar os meus familiares e nada.

Juventina
:
Na verdade o meu querido irmão está com um grave problema e não consigo ajudar. Está metido nos meandros da droga…já tentei de tudo e não consigo tirá-lo desta vida. Para agravar a situação, injectou-se com uma seringa de um desconhecido que tem HIV. Fui com ele fazer o teste e aconteceu o pior, deu positivo.

Apolinizia
:
Ai amigas, as nossas vidas não estão fáceis… Cada uma com os seus problemas… E que problemas!

Juventina
:
O meu irmão já esteve tantas vezes em clínicas e comunidades terapêuticas mas volta sempre tudo ao mesmo, basta encontrar-se com os amigos.

Apolinizia: O meu irmão sofre do trauma da guerra de Angola. Os dias dele têm sido um inferno, já não sei o que deva fazer em relação a este problema.

Balbina
:
Bem, os problemas da Maria, da Francelina, da Juventina e também da Apolinizia, teremos que, em conjunto, tentar arranjar soluções e pedir ajuda a quem nos puder socorrer.

Apolinizia
:
E tu, querida Balbina, como vai a tua vida?

Balbina
:
Eu tenho um irmão que já está em Portugal há 20 anos, casou com uma portuguesa e não consegue de maneira nenhuma a sua legalização. O SEF exige papéis que não acabam nunca.


Acto II, Cena I

No final de uma tarde bem passada onde as emoções estiveram à flor da pele, houve espaço para rir, chorar… enfim, partilhar vivências. Depois deste encontro, as cinco amigas combinaram que dali a seis meses voltariam a encontrar-se, e, talvez quem sabe, com a resolução para os seus problemas.

Passados seis meses, as cinco amigas voltaram a encontra-se no mesmo sítio.

Maria
:
Olá querida Francelina.

Francelina
:
Olá querida.

Maria
:
Como está a situação dos teus filhos?

Francelina
:
Como sabem os meus filhos tinham-me abandonado, mas há pouco tempo o meu mais velho foi pai e realmente viu que me estava a fazer. Juntou os irmãos, telefonaram-me e encontrámo-nos. Agora, com a graça de Deus, somos de novo uma família.

Maria
:
Olha, o meu filho conseguiu finalmente pensar que aquilo que me fez não estava correcto, e agora já é meu amigo e nunca me deixa sozinha.

Apolinizia
:
Graças a Deus o meu querido irmão conseguiu recuperar depois de ter feito terapia de grupo. Os fantasmas da guerra parecem ter desaparecido de vez. Encontrou uma moça e refez a sua vida.

Juventina
:
O meu irmão também, depois de tanto sofrimento e uma vida dura, recuperou. Em relação ao problema do HIV, a doença está controlada. Tem tido acompanhamento médico e medicação. Apesar de não curar o vírus, permite-lhe ter alguma qualidade de vida. Tenho muito orgulho nele. Arranjou trabalho e afastou-se das más influências que tinha. Agora era importante arranjar uma companheira… Quem sabe?!

Balbina
:
Queridas, no fim, todos os nossos problemas se resolveram, até o meu mano se legalizou e tem uma vida tranquila e feliz.

As cinco amigas que por fim resolveram os seus problemas são agora mulheres felizes e realizadas.

A VIDA É UMA PERSISTÊNCIA


Nome das personagens:

NELMA: Chiquinha (Agricultora caipira)
CRISTINA: Madalena (Psicóloga)
ISABEL: Josefa (Embaixatriz)
ANA ISABEL: Ana Moura (Fadista)
GRAÇA COELHO: Papoila (Apresentadora)


ACTO I, CENA I


Papoila: Hoje venho aqui partilhar com vocês uma história que une diferentes culturas e faz sobressair os seus encantos e desencantos. Tudo começa no Brasil com o retrato da vida de uma senhora caipira. Um encontro feliz vai dar origem a novos encontros que nos conduzem melódica e poeticamente a uma reflexão sem tempo para acabar. Ditará cultura o nosso destino? Só o fado o dirá!

ACTO II, CENA I


Madalena: Boa tarde, posso entrar para falarmos, eu sou portuguesa e vim fazer um trabalho comunitário aqui no Brasil.

Chiquinha: Boa tarde! Entre e sente-se por favor.

Madalena:
Posso fazer uma pergunta?

Chiquinha: Sim.

Madalena: Já foi à escola?

Chiquinha:
Não! Não sei ler nem escrever, mas sei contar, porque vendo aquilo que planto e crio animais.

Madalena:
Eu sei como posso ajudar. Nós abrimos uma pequena escola aqui perto. Em relação aos transportes não se preocupe, há a possibilidade de vir buscá-la a uma hora a combinar e trazê-la de regresso a casa. Estás interessada?

Chiquinha:
Eu gostava.

Madalena:
Ok, então fica combinado. Tem agora uma oportunidade de iniciar os estudos. Nunca é tarde para fazê-lo! Espero que corra tudo bem. Se entretanto surgir alguma questão estarei ao seu dispor para esclarecê-la e ajudá-la. Adeus, beijinhos. Quero ter notícias suas. Vou deixar o meu endereço e nº de telefone. Espero, quem sabe, encontrá-la um dia em Portugal. Boa sorte!

ACTO III, CENA I


(Em Portugal, enquanto andavam por uma rua da Baixa Lisboeta)

Ana Moura: Amiga, sabes quem está a chegar do Brasil e de Angola?

Papoila:
Quem?

Ana Moura:
A Madalena e a Josefa. Chegam hoje.

ACTO IV, CENA I


(Madalena e Josefa encontram-se no Aeroporto)

Josefa: Olá! Está tudo bem?

Madalena:
Sim, e tu?

Josefa:
Também. Gostei imenso de estar em Angola. Consegui andar para a frente com o nosso projecto. Fiquei entusiasmada. O meu País já não está em guerra mas ainda há muita falta de recursos económicos e muita carência social. As consequências da pobreza e poluição ainda são desastrosas.

Madalena:
Olha Josefa, podemos combinar para irmos à casa do Artista. O que dizes?

Josefa:
Está bem. Depois ligo-te, ok?! Combinamos com as nossas colegas.

ACTO V, CENA I

(Numa casa de fado no Bairro Alto)

Papoila:
Alguns anos mais tarde as amigas juntam-se todas na casa de fado. Conversam de tudo um pouco.

Madalena: Olá amiga, tudo bem? Só consegui chegar agora! Está um trânsito infernal… Olhem, quero apresentar-vos a Chiquinha. Já vos falei muito dela, agora finalmente conhecem-na pessoalmente!

Josefa, Ana Moura, Papoila: Muito prazer Chiquinha! Seja bem-vinda a Portugal.

Chiquinha:
O gosto é todo meu. Vocês Portugueses são muito hospitaleiros. Tenho sido recebida com muito carinho…

Ana Moura:
Sei que vai colaborar na Associação de Apoio a Pessoas Desfavorecidas criada pela Madalena e Josefa.

Chiquinha: Sim, tive o grande privilégio de ser convidada pela Madalena, e claro com o ok da Josefa, a quem também muito agradeço. Ainda me custa a acreditar. A minha vida deu uma volta de 180 graus!

Josefa: Por algum motivo a vida juntou-nos nesta causa. A Chiquinha, pelo que sei, tem uma história de vida riquíssima. É uma mais-valia poder contar com a sua participação na Associação, pois é um exemplo vivo de como é possível dar a volta por cima… Sem esforço nada se consegue!

Madalena: Chiquinha, conta-nos um pouco da realidade que se vive no Brasil… a começar pelas grandes desigualdades entre o pobre e o rico.

Chiquinha: Constatamos que na nossa sociedade existem indivíduos que vivem em absoluta miséria e outros que vivem em mansões rodeados de coisas luxuosas e com a mesa muito farta todos os dias, enquanto outros nem sequer têm o que comer durante o dia.
As desigualdades sociais não são acidentais, e sim produzidas por um conjunto de relações que abrangem as esferas da vida social. Na economia existem relações que levam à exploração do trabalho e à concentração da riqueza nas mãos de poucos. Na política, a população é excluída das decisões governamentais.

Papoila: Bem, nós cá em Portugal já começámos cada vez mais a assistir a essa triste realidade…e digo isto sem querer ser fatalista, mas assusta-me o rumo que as coisas estão a tomar! E tu, Madalena, como está a correr o teu trabalho? A Psicologia da Saúde em Portugal tem pernas para andar?

Madalena: Vocês sabem que na Psicologia da Saúde, em Portugal, na opinião dos profissionais, ainda estamos muito desfasados relativamente aos outros países da Europa. O nosso trabalho nas Instituições de Saúde afasta-se daquilo que é internacionalmente aceite em termos de intervenção da Psicologia da Saúde.
As pessoas recorrem aos serviços em contexto de crises pessoais. Há evidências de que disponibilizar estratégias para evitar o aparecimento de psicopatologias, ou que as mesmas sejam amenizadas ou ainda bem aceites pela comunidade, aumenta o bem-estar subjectivo dos utentes e melhora a qualidade de vida dos mesmos. Quero com isto dizer, que a prevenção é fundamental para criarmos sociedades com saúde mental. Em Portugal é significativo a mortalidade, pois o comportamento em geral é desanimador, influenciado pela própria doença. Dentro desse contexto é muito importante desempenhar a manutenção e prevenção de saúde. Evitaria muitas situações que infelizmente por vezes têm um desfecho dramático.

Ana Moura: Bem, agora com a Associação vão ter oportunidade de darem voz activa à vossa intervenção. O vosso esforço valeu a pena! E tu, Josefa, a tua viagem a Angola ajudou-te no projecto da Associação? O que trazes de novo?

Josefa: Venho dar a conhecer um pouco da realidade do que se vive em Luanda. Apesar da riqueza do meu país em matérias-primas, a maioria da população vive em condições de pobreza. Existem muitas carências na vida quotidiana. A falta de recursos económicos, nomeadamente a carência de rendimento e exclusão social é também um dos grandes flagelos. Não esquecendo a poluição do ambiente, provocando um efeito negativo.
Então e tu fadista? A música ainda preenche a tua vida?

Ana Moura: Minhas amigas! Eu agora ando fascinada com as obras e vida de Fernando Pessoa. Ainda me vou dedicar à escrita... Sabiam que Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua Portuguesa? Foi Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana. A sua poesia atinge a todos, sem distinção da raça ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.

Papoila: Amigas, gostava de ficar aqui com vocês, mas agora o palco chama-me! Prometo que no final do espectáculo continuamos a nossa conversa. Espero que esta noite de fado seja do vosso agrado! Para mim é sempre um recordar dos bons e velhos tempos… Bem, divirtam-se que agora vai-se cantar o fado.

(Papoila dirige-se para o palco, para assim apresentar a actuação da sua querida amiga Ana Moura)

Papoila: Boa noite a todos! É com muito gosto que estou aqui hoje para dar abertura ao nosso espaço dedicado ao fado. Gostaria primeiro de falar um pouco sobre a origem desta forma de musicalidade que é tão nossa, tão Portuguesa!

O fado canta-se a vida /
Ao Fado canta-se a morte/
O Fado canta-se a partida, a despedida e a nossa sorte...

A palavra fado vem do latim fatum, ou seja,”destino”. Terá surgido provavelmente na primeira metade do século XIX. Parece despontar da imensa popularidade nos séculos XVIII e XIX da modinha e da sua síntese popular com outros géneros afins, como o Lundu, no então rico caldo de culturas presentes em Lisboa, tendo como resultado a extraordinária canção urbana conhecida como “fado”. Começou por ser cantado nas tabernas e nos pátios dos bairros populares, como Alfama, Castelo, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa mas logo tomou importância nacional. As tabernas, primordialmente, eram palco de encontros de fidalgos, artistas, trabalhadores das hortas, populares e estrangeiros, que se reuniam em noites de Fado vadio, ou seja, o Fado não profissional. A primeira cantadeira de Fado de que se tem conhecimento foi Maria Severa Onofriana. Cigana e prostituta, de família da estirpe, cantava e tocava guitarra nas ruas da Mouraria.

Papoila: Senhores e Senhoras vão agora ouvir um fado cantado por Ana Moura. De seguida, duas amigas de Ana Moura vão recitar dois poemas. Espero que gostem!

(Ana Moura canta “Estranha forma de Vida, de Amália Rodrigues)

Foi por vontade de deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de deus.
Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de forma perdida
Que lhe daria o cordão
Que estranha forma de vida
Coração independente
Coração que não comando
Vive perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente
Eu não te acompanho mais.
Para, deixar de bater
Se não sabes onde vais
Eu não te acompanho mais.

Chiquinha: (Recita o poema "Saudades do Brasil em Portugal")

O Sol das minhas lágrimas de amor
Criou o mar.
Que existe entre nós dois para nos unir e
Separar.
Pudesse eu te dizer a dor que dói
Dentro de mim.
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim.
Ausência tão cruel saudade tão fatal!
Saudades do Brasil em Portugal!
Meu bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer, desolador, nas voz do vento,
Sou eu em solidão pensando em ti, chorando.

Josefa: (recita o poema "Coragem", de Fernando Pessoa para homenagear Ana Moura)
“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz, é deixar de ser vítima dos problemas e se torna um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para a receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”